Nossos Comparsas: Entrevista com César Milman do Rizoma Cultura

 - por José Noce
 Um grupo Antifa para jogar RPG de Mesa Online!


(...) Mas aí você vai ser obrigado a imergir né cara. Porque não tem o botão* do herói, não tem o botão do faz-tudo, do raio laser, do romance pronto, do ilusionismo do mestre... não tem esses esquemas no OSR! No OSR é só imersão cara, não tem outra coisa. Você vai ter que resolver problemas, tem que se virar, entendeu? Não tem um calorzinho da história bonitinha, do romance, da jornada do herói. Meu irmão, é um perrengue, se vira aí... imerge aí ou morre!

- César Milman

 

Olá meu povo e minha pova! Estamos de volta com a coluna dos Nossos Comparsas, apresentando colegas e grupos bacanas que a gente encontra nessa jornada RPGística. Só que dessa vez voltamos com um estilo alternativo, nesse novo formato de entrevista. Não que futuramente eu não venha a fazer resenhas de parceiros no formato antigo, mais descritivo. Mas a partir de agora, quero ver se uso esse formato para a coluna sempre que possível, pois não tem ninguém melhor para falar dos nossos convidados e seus projetos do que eles mesmos!

E essa matéria já começa com uma resposta icônica do Cézar para uma afirmação de que os jogos de RPG OSR seriam menos imersivos que os Narrativos, feita lá no grupo do Rizoma. E como no Brasil a zoera never ends, o pessoal acabou transformando ela em meme, figurinha, etc, como vocês podem conferir pela foto dele hehehe. Ele é professor, mas não só nas salas de aula, pois também compartilha seus conhecimentos RPGísticos com os jogadores mais novos e demais interessados. Também é de esquerda, e criou um grupo para discutir e jogar RPG de Mesa online. Grupo este que se posiciona abertamente contra o fascismo.

Mas hoje viemos nem tanto para falar do pai, mas sim do filho, o Rizoma Cultura! Sem mais delongas, eis a entrevista:

Macunaíma Games: Quando o Rizoma foi criado? O que inspirou a criação do grupo? Houveram outras pessoas por trás da criação além de você?

César Milman: O Rizoma foi criado em 2018. (...) Teve essa vontade de jogar diferentes sistemas, e trazer as pessoas pra jogarem. E fazer nessa questão né, de “Então se não tem mestre, vamos mestrar, vamos fazer as mesas acontecerem”. (...) A idéia era fazer one shots presenciais, sempre variando o sistema. Acabou que a galera gostou, se empolgou ali com o jogo. (...) Mas acabou que não foi pra frente, porque o pessoal não teve disponibilidade de horário. E aí eu queria continuar com essa idéia de chamar só pra one shot, mas acabei me deparando com uma iniciativa que eu já conhecia, mas não tinha muito entendimento, que é o RPG World. Essa galera, o Rafael Peregrino, a Andressa, o Guilherme, faz eventos aqui na Baixada Fluminense – principalmente em São João e Caxias – e outros lugares do Rio. E estavam fazendo eventos periódicos, pelo menos duas vezes por mês, às vezes até mais, quatro vezes por mês. E aí eu pensei, “bem, isso supre o que eu tô querendo fazer, (...) vou estar ali mestrando one shots de sistemas diferentes. Falei pô legal, bacana!” Paralelo à isso, fui convidado por um amigo meu pra jogar online. (...) E aí conheci o Discord, achei muito legal, e tive essa vontade de montar um servidor pra fazer essa idéia que eu tinha antes presencial, e que eu continuaria durante os eventos do RPG World, mas fazer de maneira virtual também.

E aí eu montei um servidor, botei esse nome né, Rizoma Cultura. Que é um nome que acho legal essa idéia do rizoma, da planta em que não se definem as partes enquanto caule, raiz, folha. É tudo junto, tudo tem a sua função ali interligado. E isso levado ao campo de pensamento, da filosofia, é uma corrente de pensamento que trabalha com esse conceito, com essa idéia de pensamento sem hierarquia, aonde as idéias e os conceitos se relacionam de forma equivalente. E aí eu comecei a chamar pessoas, e foi dando certo. As pessoas foram entrando no grupo de WhatsApp  da mesa presencial que já tinha dez pessoas. E fui chamando, mais pessoas entrando, e marquei a primeira mesa. E começou nesse ritmo, chamando cada vez mais gente, marcando mais mesas. E chamando outros mestres. A idéia era que outros mestres participassem, e devagar eles foram aparecendo a fim de mestrar.

Macunaíma Games: Como surgiu a idéia do Quinqüestre de Autores Nacionais? Existe algum tipo de organização temática que varia durante o ano? Se sim, como funciona?

César Milman: A idéia surgiu assistindo à Semana de Autores Nacionais do Canal Clube do XP. Que Chamou algumas pessoas como o Peregrino, o Jorge Valpaços, pra mestrar os seus jogos. E a gente já tinha no Rizoma muitas mesas de sistemas nacionais que eu mestrava. Daí eu falei: “legal, então vamos fazer daqui até o final do ano marcar as one shots só de jogos nacionais.” A idéia era de entrar campanhas mais curtas, de quatro a cinco seções, mas acabaram entrando campanhas mais longas também. Mas peguei essa idéia de eu mesmo mestrar. E fui tendo contato com alguns autores, que resolveram eles mesmos mestrar ali também seus sistemas. Muito legal!

Em relação à essa questão de temática, não tem uma organização assim planejada. Às vezes, quando chega uma data comemorativa, alguma coisa ali que ta acontecendo, acabo me inspirando de colocar ou mestrar isso ali no grupo. Mas falar “Essa semana vai ser realizado esse tema aqui”, não tem nada pré-definido não, é uma coisa mais espontânea, mais orgânica.

Macunaíma Games: O grupo se posiciona abertamente como antifascista. Qual a importância de se posicionar politicamente neste momento que passa o Brasil? E como isso interfere no crescimento do grupo?

César Milman: O grupo se posiciona abertamente anti-facista porque isso acaba surgindo ali do convívio, da prática. Talvez fosse algo que não precisasse se posicionar, mas é inevitável. Sim, precisa! Porque as idéias e as práticas fascistas estão presentes o tempo todo na sociedade. E na cena de RPG também. E o Rizoma é um projeto pra agregar pessoas. E se você não se posiciona, as pessoas vão achando que é um espaço aonde elas podem ter certos tipos de posturas e posicionamentos. E esse posicionamento fascista não é aceitável. Isso é bem claro e importante de se relacionar ao momento que a gente está vivendo, com uma normatização ou naturalização do fascismo, através da pregação e da prática das instituições do poder, que se colocam cada vez mais escancaradamente num posicionamento fascista. Isso levando cada vez mais ao cidadão comum à abraçar e aderir à esse tipo de comportamento. Então no Rizoma se coloca bem claro que isso aqui não é aceitável. As pessoas confundem a democracia com cada uma fazer o que quiser. Mas desde o momento que você é intolerante, você está indo contra a liberdade individual do outro. (...) Porque a democracia vai muito além do que a ideologia burguesa prega, em relação à liberdade individual e em questão de se expressar. Vai ali do convívio do outro.

E isso interfere no crescimento do grupo de maneira à afastar pessoas nocivas pro restante. (...) É diferente de grupos de RPG que eu já participei, que quando as pessoas se posicionam, os administradores acabam punindo, questionando ou chamando a atenção dos envolvidos numa discussão. Inclusive das pessoas que reagem à um comportamento fascista ou uma agressão. Então não é aceitável um comportamento fascista, e as pessoas que reagirem estão certas. É claro que a gente vai resolver isso à nível de administração também, né? (...) Não vou ser neutro, não tenho interesse nenhum em ser neutro, diante de ações fascistas. O Rizoma não é neutro, ele é contrário à isso, e se posiciona totalmente à favor da classe trabalhadora e das minorias políticas. Aqui não tem esse negócio de neutralidade.

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E se você, assim como eu, também ficou interessado em participar das jogatinas e das discussões que rolam por lá, basta acessar os link abaixo. Lembrando que apesar do posicionamento antifa, o Rizoma é antes de tudo um grupo que discute RPG. E que pra discussões off topic muito longas, eles dispõem também de outro grupo para discussões polêmicas para não flopar o grupo principal.

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*Nota: “Jogo de apertar botão” é uma expressão que muitas vezes é usada em comunidades OSR para definir jogos com mecânicas muito densas. É uma comparação como se cada mecânica de perícia, vantagem ou poder, entre outros, fosse simplesmente um botão para ser apertado pelos jogadores.

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